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| Saul Steinberg, "Kiss", 1959. |
"É isso: você só gosta de minas secundárias, sem personalidade e nem graça nenhuma. Por isso que a gente nunca deu certo"
Ouvi minha sabedoria soltar, sem o filtro que pouco uso pra dizer verdades. Ambos ainda na cama, exauridos dos minutos de meia-hora atrás. As roupas abarrotadas pelo chão. Um silêncio pertubador.
"Sabe que tu não é a primeira pessoa que me diz isso, né?"
Eu tinha certeza. Oras, tanta mina foda do mainstream e ele vê como algo apetitoso Victoria Beckham? Mickey lá sendo foda em Love e o sujeito se apaixona pela amiga certinha, sonsa, boa gente e sem defeitos da serie. Tem crush na Anitta, ok. Ganhou alguns pontos. Emma Stone? Ah, blasé, né? Que homem não gosta dela? Quero ver é incluir a Cleo Pires nessa lista aí. Tô esperando quem coloque Serena Williams e toda aquela força da natureza que ela representa e Greta Gerwig, peculiaríssima.
"Já abriu essa janela alguma vez na vida?"
Seis meses de São Paulo. Sotaque (ainda) gaúcho. A da esquerda abre fácil, é mais com jeito que com força. Posso tirar uma foto? Essa cena tá de ensaio sensual. Tinha escolhido a dedo a calcinha vermelha e o choker de coração. Cê tá tirando foto? Olha, hein. Tô zoada. O quarto tão bagunçado como só as pessoas interessantes arquitetam. Cadeiras achadas por Moema. Duzentos reais em canetinhas e produtos de papelaria no aniversário. E precisa do protagonismo de macho branco e cheio de privilégios pra se sentir mais seguro.
"Sabe que São Paulo é mesmo a tua cara. Caótica, cheia de vontade de fazer coisas novas, acelerada. E não é que tu voltou?"
Volto alguns meses. Coloco pra rodar as memórias de quando eu era apaixonadíssima pelo cara e ele me curtia um bocado. Sim, rolava uma disparidade de interesse. Mas, tudo bem. Afinal, naquele pacotinho tudo-que-eu-gosto-em-alguém ele configurava o homem grande, moreno, tatuado, estranho e falante que eu sempre procurei pelos bares, becos e aplicativos. Íamos longe falando sobre música, assistíamos aos mesmos seriados. Era pra ser perfeito, não fosse a minha sede em transparecer até o talo e o desejo dele por uma garota "mais calminha".
"Tá a fim de fumar? Adquiri esse hábito depois do sexo"
Uma negativa assustadiça. As pupilas dilatadas dele me fitando, pasmo. Agora, eu tava ligada: aquela treta não foi engolida justamente pela intoxicação que tanto vigor em palavras, maluquice e um quê de personalidade causou. Se é pra se envolver, taco dendê, curry, cacau em pó e até chantilly. Tudo, menos o gosto aguado que agrade quem possui déficit no paladar.
Andei rumo à Avenida Ibirapuera aliviada. Livre de uma dessas paixonites dodóis que nos contaminam até as vísceras de ano em ano. Tranquila por saber usufruir do sexo gostoso que ele evita, de meses em meses, degustar. Preciso é achar quem encha o prato no quilo e não tenha frescura - ainda que pra se satisfazer a cada uma semana ou duas.
Descrushei.


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